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O machado

Os orientais tem um modo poético de expressar verdades. Ao que parece, quanto mais sublime a verdade, mais poéticos se tornam. Veja, por exemplo, esse ditado:

“Seja como o sândalo que perfuma o machado que o fere”.

Ouvi um amigo de origem oriental expressar-se assim ao ler o artigo do Mons. João Clá cujo texto vem a seguir:

Um Novo Mandamento

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

“Este é o meu mandamento: amai–vos uns aos outros, assim como Eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15, 12-13).

Nosso Senhor nos deu um mandamento novo que tornar-se-á uma das principais pilastras da Nova Aliança: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei”.

Na Antiguidade, também existia amor — por exemplo, entre os membros de uma família — mas este era ainda defectivo. Porém, se Cristo não tivesse Se encarnado, jamais poderia a humanidade ter conhecido essa sublime benquerença que infunde a bondade e transforma.

Jesus trouxe para a Terra uma nova e riquíssima forma de amor, ensinou-a com sua vida, palavras e exemplo, e beneficiou-nos com sua graça, sem a qual nos seria impossível praticá-la. Ora, assim quer também Ele que nos amemos: tomando a iniciativa de estimar os outros, sem deles esperar retribuição, e estando dispostos a dar tudo pelo próximo, até a própria vida, a fim de ajudá-lo a alcançar a perfeição.

O grande drama dos dias de hoje é causado justamente pela falta desse amor. E, para deixar bem claro até onde ele deve ser levado, Nosso Senhor dá um exemplo prenunciador do seu holocausto na Cruz, sacrifício supremo que, sob um prisma meramente humano, poderia ser qualificado como loucura.

Jamais na História alguém havia amado seus amigos a ponto de se entregar por eles como vítima expiatória. Ora, se Cristo, sendo Deus, assim Se imolou por nós, qual deve ser a nossa retribuição?

Em que consiste a verdadeira amizade

Amigo: palavra sui generis, cujo profundo significado foi, entretanto, conspurcado ao longo dos séculos.

Por cima da mera consonância ou simpatia, há na verdadeira amizade um elemento capital: desejar o bem a quem se estima. E, por isso, ela só pode estar fundada em Deus, visto não ser possível ambicionar para o outro nada melhor do que sua salvação eterna.

Ao Se encarnar e nos revelar as maravilhas da Boa Nova, Jesus não reservou para Si aquilo que ouviu do Pai, mas transmitiu-o numa medida proporcionada à nossa natureza. Ora, conhecendo-O, amando-O e cumprindo os seus Mandamentos, transformamo-nos em verdadeiros amigos seus, porque amigo é aquele que conhece a vontade do outro e a põe em prática.

O verdadeiro sentido da palavra “amor”

O Evangelho situa a palavra “amor” numa perspectiva inteiramente diversa daquela à qual estamos acostumados, convidando-nos para o mais elevado relacionamento que seja possível alcançar nesta terra: a amizade com Jesus.

Se nos primórdios da nossa era os pagãos, ao se referir aos cristãos, diziam “veja como eles se amam!”, nos nossos dias, tão tristemente paganizados, esse afeto deve brilhar de modo a atrair aqueles que se afastaram da Igreja. E, para isso, precisamos expungir de nossas almas todos os sentimentalismos, romantismos ou egoísmos que possam existir nelas.

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus”, exorta o Apóstolo São João (I Jo 4, 7). Quem ama com verdadeiro amor não busca ser adorado pelo outro, nem exige reciprocidade. Procura, pelo contrário, ser educado, cuidadoso e zeloso com todos, sem fazer acepção de pessoas, visando refletir de algum modo no convívio do dia a dia o afeto inefável que Cristo manifestou por cada um de nós durante sua Paixão.

9 Responses to O machado

  1. José Nunes Cavalcante Jr says:

    Hoje, parece que os homens alteraram o mandamento de Jesus: ao invés de amai-vos o que seguem é “ARMAI-VOS uns aos outros. Peçamos a Deus que isso mude e voltemos a amar-nos uns aos outros. José Nunes (Juca)

  2. Valter Menezes says:

    Como é diferente esta noção de verdadeiro amor!

    Quem de nós ama verdadeiramente?

    Pelo que foi dito:
    “Quem ama com verdadeiro amor não busca ser adorado pelo outro, nem exige reciprocidade.”
    (então, se quando amamos, exigimos ser amados, isto não é verdadeiro amor!!!. É Impressionante! )

    “Procura, pelo contrário, ser educado, cuidadoso e zeloso com todos, sem fazer acepção de pessoas,”
    (então, ser educado, cuidadoso e zeloso só com algumas pessoas, não é verdadeiro amor!!! Tenho que reaprender sobre o que é o verdadeiro amor!)

    “… visando refletir de algum modo no convívio do dia a dia o afeto inefável que Cristo manifestou por cada um de nós durante sua Paixão.” Nooossa!

    Perfumar o machado que nos fere! Que sublime lição!

    Demos graças a Deus por este novo Mandamento!

    • Maurílio Fiuza says:

      Esses comentários de Monsenhor João Clá sobre o Amor, como de resto todos os comentários que ele faz, são uma verdadeira preciosidade. Eles avivam em nós o desejo daquele convívio pervadido “do afeto inefável que Cristo manifestou por cada um de nós durante sua Paixão”, do qual os Arautos do Evangelho são um exemplo vivo. São palavras e exemplos que nos colocam na via que Santa Teresinha abriu para nós e que nos encorajam a “escolher tudo”, a pedir para todos nós, “sem acepção de pessoas”, este Amor que nos eleva a todas as formas de santidade possíveis, porque “ O Amor abrange todas as vocações, alcançando todos os tempos e todos os lugares, o Amor é eterno … o Amor é Deus!” (Manuscritos Autobiográficos).

      Parabéns, continuem trazendo comentários de Monsenhor João Clá!

  3. Stefânia Petrina dos Santos says:

    Este artigo se aplica muito aos nosso dias, nos quais o Eu fala sempre mais alto.
    Temos que pedir a graça de:amai–vos uns aos outros, assim como Eu vos amei.

  4. Antônio de Pádua Mendes says:

    Nesse artigo sentimos a grandeza e profundidade do ” amai-vos uns aos outros”, que implica em doação total e sem interesse.

  5. CARLOS ALBERTO VIEGAS DE ARAÚJO says:

    Belíssimo é o texto do Monsenhor João sobre o Novo Mandamento: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei”. Deus é amor. Mesmo quando nos afastamos D´Ele, o Seu amor continua a nos “perseguir”, a esperar de nós um retorno, como o filho pródigo. “ De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu próprio Filho, seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo3,16). Não satisfez Cristo seu divino amor sacrificando a sua vida por nós, mas, impelido por seu infinito amor, legou-nos antes de morrer a maior de todas as dádivas, dando-se ele mesmo para nosso sustento, instituindo o sacramento da Eucaristia. Além disso, quis ocultar-se sob as espécies de pão e vinho, a fim se ser acessível a todos. Para que não fraquejemos de cansaço na dura viagem aqui na Terra rumo à eternidade, Jesus, conhecendo a natureza humana, deixou na Sua Igreja os sete sacramentos, que são os alimentos da alma, os sinais sensíveis pelos quais Deus comunica sua graça. Deixou-nos Sua Mãe como nossa advogada e intercessora e muitas outras maravilhas. Devemos, portanto, procurar amar nosso próximo como Deus nos ama, sobretudo lutando pela sua salvação eterna, que é uma prioridade de Deus e de seus fiéis seguidores.

  6. Cíntia Araújo says:

    O texto do Monsenhor João nos faz refletir sobre o verdadeiro sentido do amor. Por que a humanidade cada vez mais cai no abismo do caos, numa época em que nunca se falou tanto em Jesus e amor? O amor de Deus não é questão de sentimentalismo, de boa vontade ineficaz. Além da fé, Deus exige fidelidade às Suas palavras. Amar a Deus é fazer toda a Sua vontade, e não apenas a parte que nos convém. O que nos salva é a ação, prática de vida, e não boas intenções. “Nem todo aquele que Me diz: ´Senhor, Senhor, entrará no Reino do Céu, mas somente aquele que põe em prática a vontade do Pai que está no Céu” (Mt 7,21).

  7. Cecília says:

    Que lindoo esse artigoo !

  8. Cristiano Lombello says:

    Um dos aspectos que me chamou mais a atenção no texto do Monsenhor João é quando ele diz que o grande drama dos dias de hoje é causado justamente pela falta daquele amor que Jesus nos mandou viver. As pessoas hoje, em geral, se contradizem quando falam que amam a Deus e ao próximo, mas O desobedecem, descumprindo Seus mandamentos, vivendo na ilusão de que estão bem relacionadas com Deus, pois perderam a noção de pecado e que as palavras de Deus são sempre vivas, nunca ficarão ultrapassadas. No fundo a presença de Deus as incomodam, inquieta, pois Ele exige desapego às coisas terrenas, renúncia, sacrifícios, austeridade, fraternidade, esvaziamento do coração e muitas coisas a mais. Se a provação chega logo fraquejam na fé. São incapazes de perceber que Deus não abrandará o rigor da cruz, se ela for necessária para a nossa salvação e santificação, mas Ele nos dará também a força para suportá-la e levá-la até o fim, basta confiar e amar verdadeiramente a Deus e ao próximo.