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A FONTE

Você provavelmente já passou por alguma circunstância em que ficou longamente com sede e talvez uma sede ardente. Todos nós fomos criados para a vida sobrenatural recebida no Batismo, o qual constituiu em nós um organismo participante da vida do próprio Deus. Assim como o corpo, esse organismo necessita de “água” e “alimento” para desenvolver-se. Do contrário, este organismo definha, pode vir a ficar anêmico e até ficar agonizante ou morrer.

Isso é tanto mais perigoso quanto o corre-corre, as incertezas, o risco de sofrer violência nos traz sempre ocupados — às vezes estressados… —, dificultando cuidar do mais essencial de nossa vida: nossa vida espiritual. Assim corremos o risco de definhar, etc.

O artigo a seguir, de autoria de uma Irmã do ramo feminino dos Arautos do Evangelho, dá pistas para resolvermos o problema acima levantado.

O artigo foi condensado, mas mantém fidelidade ao texto completo. O subtítulo é nosso.

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“COMO O SERVO BUSCA A FONTE DAS ÁGUAS…”

Irmã Mary Teresa MacIsaac, EP

Com seu característico murmurejar, as águas de um rio desfilam em elegante correnteza, ora cobrindo as grandes pedras que encontram pelo caminho, ora acompanhando com docilidade as sinuosidades do percurso. Por vezes rápidas e borbulhantes, morosas em outras ocasiões, elas avançam infatigáveis em direção ao seu fim último: o mar.

Dir-se-ia emanar a vida deste ser inanimado em constante movimento. Às suas margens vicejam delicada vegetação e frondosas árvores. Animais das mais diversas espécies, se aproximam para se beneficiar de suas águas, tanto mais cristalinas quanto mais próximas da nascente.

Tímido e desconfiado, oculto entre as plantas, podemos ver um cervo. Diferente de outros animais, não se satisfaz com as águas barrentas de rios que já passaram por vales e montes. Ele corre atrás daquelas mais puras e límpidas: uma fonte que brota do solo ou uma linda cortina de prata escorrendo pela encosta de uma montanha rochosa.

Quem, como o cervo, não deseja encontrar uma fonte de água refrescante e cristalina? Ela devolverá o alento ao viajante fatigado, alívio ao sedento e prazer a todos os que com ela se deparem, porque a água é sempre benfazeja.

APLICAÇÃO À VIDA ESPIRITUAL

Ora, tudo isso pode ser elevado à esfera espiritual, pois, acaso não é Jesus a fonte inexaurível de água viva, para a qual corre o cervo do salmista? “Assim como o cervo busca a fonte das águas, minha alma suspira por Vós, ó meu Deus” (Sl 41, 2).

Os olhos interiores, diz Santo Agostinho, são capazes de ver esta fonte, e uma sede interior arde em nós, no desejo dela. Então aconselha: “Corre para a fonte, deseja a fonte. Mas não corras de qualquer modo, como qualquer animal. Corre como o cervo. Que significa ‘corre como o cervo’? Que não seja lenta a corrida; corre veloz, deseja logo a fonte”.(1)

A misericórdia de Jesus é infinita e anseia que a Ele acorramos para perdoar nossas faltas, e nos saciar com a água viva da graça, pois “o que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede” (Jo 4, 14).

Quanto mais nossas vidas sejam alimentadas pela graça divina tanto mais seremos capazes de vencer os obstáculos. A água viva de Cristo purifica as águas mais lodacentas, revigora os cursos estagnados e remove as mais duras e traiçoeiras pedras. Nosso Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro manancial da graça que vivifica os filhos de Deus, é a torrente do amor infinito que veio ao mundo para que todos “tenham vida” (Jo 10, 10).

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(1) SANTO AGOSTINHO. Enarratio in Psalmum XLI, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.6.

(Condensado do artigo “Como o cervo busca a fonte das águas…”, Irmã Mary Teresa MacIsaac, EP, in revista “Arautos do Evangelho”, nº 150, junho de 2014, p. 50-51)

Fotos: Timothy Ring / Skyfirex / Francisco Lecaros